uma crônica para felipe

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Felipe chegou de mansinho, muito cordial e polido, pedindo uma informação completamente inútil:
– Antes deste trem passou mais algum?

Muitos trens haviam passado antes daquele, aquele mesmo inclusive, e isto evidentemente não era importante. Importante era que Felipe tentava encontrar em mim, uma desconhecida, a resposta para a mais perturbadora pergunta a alguém que acabara de fazer 19 anos.

– Devo acreditar no meu amor?

Eu que não sou pouco nem passivamente supersticiosa, procurei por fora e por dentro de mim quem havia colocado Felipe em meu caminho – e eu no dele – no dia e na estação de trem em que eu casualmente decidira ficar sentada por duas horas e meia aguardando uma ligação autorizando a seguir em frente.

Os olhos de Felipe brilhavam de alegria, desespero e reflexo das lâmpadas brancas e frias do embarque sentido Barra Funda da Estação Brás. Nossa conversa escandalizava cada passageiro pelos 7 segundos que passavam por nós entre a escada e a porta do trem, ou vice versa. É que Felipe já não continha suas mágoas de garoto apaixonado, assumindo cada loucura, desespero, entrega, indignação e revolta. Contou de tudo o que deixara para trás por conta deste amor, tudo o que perdeu, os empregos, os amigos, os estudos, quase a família e a cabeça.

– Eu fiz de tudo por este amor.

Este, seu primeiro amor, que sempre parece o último, como eu bem lhe avisei várias vezes. Que largar tudo porque alguém lhe exigiu não é uma coisa boa. Que muitas pessoas muito interessantes aparecerão. Que ser bela não é o melhor que uma pessoa deve ser. Que se a pessoa a quem você dia amar, se delicia te desejando a morte, o amor deve ser caso de polícia. Que é preciso cuidar de você antes de tudo. Que o amor não precisa ser ruim. Que não desistisse de amar.

*****

Passadas quase três horas de conversa, Felipe foi embora correndo. Ainda tenho dúvidas se foi mesmo para casa ou se tentava chegar a tempo de tomar o mesmo trem no mesmo horário de na mesma plataforma e mesmo vagão da pessoa amada.

Eu respirei fundo e silenciosamente pedi para quem o tinha colocado ali, que minhas palavras tivessem um mínimo de eco e que não corresse pelas escadas mais uma alma perdida dessas capazes de matar ou morrer em nome disso que chamam de amor, nem dessas algumas cruas incapazes de encontrar um cisco de felicidade na mais maravilhosa e simples pessoa que passa pela sua vida (desistindo de acessar a imensa felicidade causada por um cisco do sorriso, voz ou cheiro da pessoa amada).

Respirei fundo e em menos de 7 segundos eu estava dentro do trem seguindo meu rumo.

O trem corria, vagão em vagão, lotados e vagos vagões, e meu corpo querendo desligar de cansaço. Ainda deu tempo de sentar no único banco vazio, cheia de malas e hematomas da alergia causada pelos insetos, os pensamentos ainda conseguiram formular, tristemente, a realidade de que era impossível pensar se havia alguém ali mais necessitado do que eu depois de um dia tão intenso.

*****

A conversa com o garoto havia me obrigado a projetar no mundo, num mundo que não o meu cotidiano de amigos e companheiros, nem de papéis reconhecidos, as minhas crenças sobre este assunto, a mim, tão caro: o amor. A conduta que propus a Felipe, que parasse de alimentar a relação doentia com o ser que o enlouquecia, que buscasse tomar internamente a decisão doída de esquecê-lo e que, além de tudo, buscasse crescer com esta história, certamente não é a conduta mais simples, nem a mais agradável. Dói.

Tive que pensar em tudo o que lhe disse e vi que não tirei da cartola tantas palavras como uma dádiva de quem o havia colocado ali. Cada palavra que lhe dissera recolocou em minha pele cada lágrima, ferida e carta jamais enviada. Escancarou minhas fragilidades transformadas em palavras e conselhos para não se tornarem resignação.

Lembrei que desde que decidi que o amor não devia ser algo ruim, e isso não faz tanto tempo assim, tenho sido bastante disciplinada com minhas condutas: não quero nada que não me acrescente nem quero sugar nada de ninguém. Não quero mais romances imaginados em duas cabeças paralelos a conversas de meias palavras que dão a entender o que cada uma das partes quiser ouvir. Não quero ter que escavar uma grossa camada para chegar ao que há de melhor na outra pessoa se tudo o que ela quer me oferecer é ruim. Quero seguir o meu caminho e amar quem também queira seguir o seu caminho e que seja ótimo se os caminhos se encontrarem e isso sim é mesmo amor. Desvios e paragens por falta de fôlego causado por loucuras de romances de folhetins ou para dar a mão a quem está se perdendo dentro de casa com a luz acesa, não mais, isto não é amor.

Lembrei também que isto pode ser duro com quem vê em mim, como Felipe, alguém para responder se passou e passarão outros trens além daquele que acabara de sair e se vale a pena acreditar em seu amor; lembrei também que é preciso ser o tão doce, sincera e cuidadosa como sei ser, mas que não posso convencer as pessoas a me perguntar; que posso responder o que quiserem, mas não posso convencê-las a querer saber; que estou disposta a lidar com inseguranças como as de Felipe, e também com incertezas como a da sua pessoa amada, e com a possibilidade de precisar dedicar muita energia a um único e exclusivo amor por vez ou ainda, o que é mais difícil, com a possibilidade de ser a maior frustração ou dor da vida inteira, mas, que não posso responder ao que não me perguntam, que não posso curar inseguranças de quem prefere fingir coragem, que não posso me dispor em nome de um amor a alguém que diz “não”, querendo que eu mesma o convença a dizer “talvez”. É o caminho de cada um e não podemos esperar que apareçam pessoas dispostas a nos colocar de volta em nossos próprios trilhos (ou caminho mesmo, prefiro assim).

Lembrei que, em situações como esta, como diria um conto destes carregados de verdadeiríssma inspiração literária… “Não há nada há ser feito”. Não há o que esperar. Não há o que entender. Está tudo dito quando não dito. Mesmo quando a pele e os olhos dizem mais que as palavras (e sempre dizem), quando os descompassos, as incertezas revestidas de verdade absoluta, quando medos de futuros fantasmas assombram o presente e matam o amor de fome antes mesmo dele nascer… não há nada ser feito.

Antes que eu pareça desiludida com a palavra amor ou que toda e qualquer uma das cinco pessoas que passarão os olhos por esta crônica até desista de ler, vou chegando a um final, um final para Felipe.

*****

Felipe correu pela estação, ainda certo de que os 10 minutos seriam suficientes para chegar como todos os dias na mesma estação, plataforma e vagão de todos os dias, um dia normal como qualquer outro em que Felipe finge não ter problema algum como todos por quem passa correndo e levemente empurrando pelas 3 baldeações. Felipe ainda não sabe, mas faz parte de todo processo de recuperação de um amor frustrado querer provar a quem você ainda ama que está tudo bem, tudo normal, como ela mesma finge estar com a vida dela.

Felipe continuou correndo, impaciente, justificando para si mesmo que o motivo de tanta pressa era chegar em casa no mesmo horário de sempre, para não preocupar sua mãe nem aborrecer seu pai.

E usou toda agilidade e leveza do corpo leve e jovem para avançar por entre as estações. Chegou a sua estação de praxe, plataforma de praxe e vagão de praxe com 10 minutos de atraso. Sem querer reconhecer para si mesmo, procurou um pouco em volta para tentar avistar aquela mesma pessoa de todos os dias dos últimos 8 meses.

Não encontrou.

O trem chegou à plataforma e Felipe titubeou em entrar, pois imaginou, já despreocupado com o que isso significava, que a pessoa poderia estar atrasada um pouco mais. Ou ainda, com outra pessoa em algum lugar sujo qualquer na estação. Ou o que era pior – e estes pensamentos piores sempre vêm à cabeça de todas as pessoas nesta situação, mal sabe Felipe – poderia estar indo embora no trem de sempre aconchegada em outros braços que não o seu…

Foi um impulso de segurança que colocou Felipe dentro daquele trem antes das portas se fecharem com ele para fora. Felipe já não percebia nada. Os olhos perderam o brilho de alegria, desespero e lâmpadas e restaram apenas lágrimas. Pela primeira vez Felipe chorou sozinho. Não pediu, desta vez, conselho algum aos desconhecidos do trem. Um choro intenso, silencioso e verdadeiro inundou todo seu rosto. Sentia como se as lágrimas não saíssem dos olhos, mas do peito. Sentia que não havia mais nada a fazer senão chorar.

Uma senhora próxima a porta olhou tão firmemente a Felipe, que imediatamente ele entendeu que era a sua estação.  E já não pensava mais em nada mas seus pés o conduziram em segurança até sua casa.

Sua mãe e pai entenderam que o rosto inchado e molhado, junto dos soluções, não era nada que precisasse ser dito e o deixaram ir em paz para seu quarto. Felipe chorou tanto e chorava ainda mais cada vez que achava que morreria de tanto chorar. Sua mãe lhe deu água, açúcar e colo. Disse algumas palavras que Felipe respondeu e nem lembra o que foi. Continuou chorando como quem chora a morte, algo irreversível. Chorou tanto que, pela primeira vez desde o dia em que se viu amando, não deu atenção por um segundo sequer ao celular, email, redes sociais. O choro ganhou vida própria: tomou primeiro o rosto e o coração, depois foi para a cabeça, os músculos e os ossos.

Passaram alguns dias e Felipe aceitou ser tratado como quem estivesse se recuperando de uma doença séria por sua mãe, que controlava a hora de comer, de tomar banho, de ir para a faculdade. E Felipe passou alguns dias pensando apenas no que sua mãe, professores, livros e propagandas lhe mandavam pensar. Aos poucos foi reavendo os quilos levados pelo amor doentio. Foi se interessando pela faculdade nova, completamente distante daquela outra que em tudo lembrava o passado. Passado… circulando em seu caminho e horário, Felipe foi conhecendo a possibilidade de levar uma vida muito sem graça mas distante de loucuras que terminariam apenas na delegacia ou no hospital.

Só depois de muito tempo é que Felipe se recordou do dia em que, aflito, havia pedido conselho a uma desconhecida numa estação qualquer de trem. Quando riu de si mesmo lembrou que a moça havia lhe dito que um dia isto aconteceria e, quando isto acontecesse , ele estaria se recuperando. Ficou feliz. Não lembrava muito mais de nada daquela conversa tão longa e alucinada com a desconhecida. Mas sabia que havia algo relacionado a cuidar de si antes de tudo, que conheceria ainda muitas pessoas interessantes e para que jamais deixasse de ter fé no amor.

Nossa pequena história nossa

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Parte I – Marca do instante imediatamente após ao ato final. Instante eternizado no coração e nas palavras.

Meus olhos ainda estão úmidos. Meu corpo ainda leve pulsa em teu pulso e cheira teu cheiro. Minha pele ainda tem teu arrepio e tuas garras. Em meu coração ainda cabe tua alma. Suas mãos fortes, tua pele macia, tua respiração em meu pescoço: marcas do último capítulo de uma história minha e tua.

 
 Parte II – Diálogo
– E …tuas costas…?
– Eu quase tatuei.
– Fluxo de desejo e ódio de ti e de mim.
– Foi uma das coisas mais lindas que vivi.
– Foi uma das coisas mais fortes que vivi.
– Teu dente em minha carne, marcou para sempre.
– Tua carne em meu dente, marcou para sempre.
* * *

– Eu vi tua ira.

– Eu vi tua dor.

– Notei que chorou.

– …
– Sintonizo cada músculo teu.
– Escutei tua prece, pra eu ficar.
– …
– Escuto teus pensamentos.
– Eu te abracei.
– Quis que me envolvesse.
– Eu te abracei mais forte.
– Mais entreguei meu corpo.
– Não quis te soltar.
– Agarrei tua mão.
– Segurei teu coração.
– Agarrei teu braço.
– Respiramos na mesma pulsação.
– Deitei meu pescoço em teu ombro.
– Respirei tua respiração.
– Deitei minha cabeça em tua respiração.
– Respirei teu arrepio.
– Deitei meu peso em teu corpo.
– Ouvi nossa súplica para voltar o tempo.
– Fomos um.
– Eu em ti.
– Eu em ti.
– Um.

Parte III – Como numa sala de espelhos um já não sabia quem era o verdadeiro outro. Diálogo.

– Eu desconfiei de ti.
– Não acreditei em tuas palavras.
– Pedi ajuda a teus inimigos.
– Maldisse teu nome a desconhecidos.
– Quando te olhei não te vi.
– Quando te vi não te olhei.
– Andei atrás de ti sem que notasse.
– Caminhei adiante pra que seguisse.
– Te deixei partir sem te avisar.
– Segui meu caminho sem te chamar.
– Quando dei por mim você tinha partido.
– Quando dei por mim você não tinha vindo.

Parte IV – Uma carta jamais remetida

Esta é uma história que aconteceu com duas pessoas. Eu e você. Sim, o tempo passou. Mas recupero estas palavras, enterradas no fundo de alguma gaveta de meus sonhos. Não serão enviadas, como a maioria das palavras que escrevo. Pouco há de se dizer desta história. Nada de um grande romance, um romance de livro, um arroubo digno de cinema. Curta, talvez. Intensa, certamente.

Agora fecho os olhos para melhor sentir o vento. Minha cabeça encostada na parede em que antes coube nós dois. O mesmo vento levou teu cheiro e dissipou tua imagem. Não em minha cabeça, em meu coração. Há em mim ainda a tua lembrança.

Uma pequena história… Já vivi algumas outras, certamente não tantas quanto você. Mas aprendi a dizer adeus, a sorrir, mesmo a chorar, sem sofrer, de saudade. Como te disse, meu choro não é sempre desespero: é barco que carrega o mar de dentro.

Em meio a nosso último capítulo chorei. Entre tantos motivos, o desespero esteve entre eles.  Porque o vento – talvez muitos – dissolvia-te de mim. Não havia nada de errado em nós: nada tão grande que não pudéssemos carregar, nada tão pequenos que nos pudesse faltar. Você, ao meu lado, coube no espaço que tinha ali. Tão harmoniosamente, nem me preocupei que pudesse partir. E eu não te expulsaria.

Ventos, águas, águias, estrelas, sóis, lanças e armas foram remexidas. Moveram-te pro meio do salão. Moveram-me para o meio do furacão. Não percebemos nossos dedos se soltar. Não notamos os olhares desviar. Os olhos e as mãos são guardiões do coração. Desconectamos.

Nos perdemos.

Nos perdemos e cedo ou tarde nos perderíamos, talvez. Nossa história, pequena e leve, intensidade de nossos desejos, não prometia nada para além da simplicidade de respirar o mesmo ar que se respira. E tudo o que é sem promessa pode ser o que bem quiser. Nossa história foi assim.

E foi assim que nos perdemos. De hora pra outra e já não havia mais explicação. Há quem tenha nos maldizido. Não foram poucos, nem poucas. Maldisseram nossa leveza intensa e sem promessa. Maldisseram, duvidaram, quiseram transformar-nos em outra coisa.

Titubeamos. Não resistimos. Soltamos as mãos. Desviamos os olhos. Nos perdemos.

Em outros colos, ouvidos e bocas fomos buscar abrigo. E certas coisas, ditas em voz alta, não fazem sentido para quem não viveu. Desconectados, eu e você, também perdemos nosso sentido. O sentido meu e teu, de nós dois. A descrição de ti junto de minha angústia transformou-te num ser sem caráter e leviano. A descrição de mim junto de tua ira me transformaram num ser indiferente e arrogante. Foi quando perdemos nossa capacidade de nos ter nos olhos, na pele, no pulso que nos perdemos.

Perder alguém não é novidade pra mim, não é pra ti e não deve ser a ninguém. Mas te perder me revelou meu preceito, meu tabu e meu valor maior. Minha maior virtude e meu maior desafio. Revelou, na posição de meu antídoto. Tão opostos que somos, você me revelou, em sua partida, o grande dilema de minha existência. E foi assim que soube que de nada adiantaria tentar salvar nossa pequena, pequena e leve, leve e intensa história. Minha maior virtude, meu maior veneno.

Eu vi tua ira e teu esforço para se admitir por perto. Tão opostos que somos, foi a tristeza o meu sentimento diretamente proporcional ao teu. Senti tuas palavras ditas com engasgo, certa dose de desdém, uma pitada de fúria contra mim. Eu, em minha tristeza, já não tinha nada a dizer se não lamentar. Lamentar porque já não era mais você ali. Nossas palavras soavam em tom solene, nossos corpos já se encostavam sem desejo.

“Perdemos muito mais do que dizemos”, finalmente eu disse.

E num atropelo de desespero pedi com toda a força que me restava para que pudéssemos nos despedir. Para reencontrarmos por um instante sequer a nossa verdade. Agradeci e ainda agradeço por teu calor vibrando em minha pelo, teu peso inteiro em meus braços, tua respiração junto da minha.

Um turbilhão de sentimentos, emoções e atos nos envolveram. Ainda havia tua ira e minha tristeza indicando o inevitável momento do adeus. Te vi também triste. Me viu também em fúria, numa luta absurda contra o que não pode ser vencido.

Nossa verdade ultrapassou o curto tempo que durou nossa história. Nossas almas se conectaram. tivemos provas disto. Intensidade e verdade. Enquanto a matéria pode entender e viver assim, nos tivemos. Nossa pequena história não foi um grande romance, um romance de livro, um arroubo digno de cinema. É certo que ela está gravada pra sempre em nossas retinas, peles, peitos e almas. Não há dignidade sequer nestas palavras para descrevê-la. E não há o que possa apagar. Esta nossa, nossa pequena, pequena história minha e tua, nossa pequena história nossa.

Parte V – Diálogo

– É uma noite sem lua.
– A lua não foi capaz de nos ter.
-Era cheia quando começou.
– Para nos saudar.
– A lua, minha guia.
– Minha maior amante.
– Nos deixou a sós esta noite.
– Para dizermos adeus.
– O mundo não foi capaz de nos ter.
– Nós não fomos capazes de nos ter no mundo.
– Não coube o mundo em nossa história.
– Nossa história não coube no mundo.
– …
– …
– O que vamos fazer?
– Não há nada a ser feito. Só nos resta deitar a cabeça no travesseiro e pedir que a noite avance e cumpra o seu papel…
– Antecipar a luz que traz um novo dia.

Juê Olivia dos Anjos – outubro de 2011, Salvador, Bahia

Uma dose de avesso ou 4 dias de chuva em Salvador.

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A chuva veio como quem traz no peito a pretensão de ficar.

Pretenciosa e leve, preencheu o ar, encharcou o concreto, inundou os poros.

Os pés, enlameados e o coração, gelado, arremessou os cenários de Amado à literatura de García Marquez: de amor amado aos anos de solidão.

Quis fazer parte da festa, esta que pulsa calor, alegria e amor. Quis oferecer suas virtudes. Quis receber um pouco também.

Ah, chuva ingênua. Não aprendeu ainda seu tamanho, não aprendeu que de tão grande, dissolve o que lhe é menor. No grande da chuva, cabe a admiração à pequenice das coisinhas que habitam o solo. Não cabe, porém, nelas, suportar a grandeza da chuva. Vira chuva-barreira, chuva-porta-fechada, chuva-caminho-atolado.

E, na chuva, doeu ter de ouvir: você não faz parte, chuva, a festa acaba se você chega.

Ele se enfureceu e decidiu ficar de vez, chamou até os ventos, por todos os lados, para participar. Depois entristeceu. E chorou. Chorou e pediu para quem lhe pudesse ouvir: “não me deixe resignar”. A resignação é luto e luto é porta que nunca abre.

Adentrou na noite, sua amiga, envolta em seu próprio choro. E foi de tanto chorar que dormiu. Embalda no colo da noite, o peito cansado de soluçar, ela dormiu.

O dia amanheceu claro. Rádios ligados em alto volume, crianças fazem bolinha de sabão nas ruas; frutas, peixes e verduras reabitam as bancas no largo mais a frente.

A chuva foi embora. Resignada, triste ou curada, ainda é cedo para saber.  Mas vejo: o sol quente conversa com o ar, ainda fresco. As nuvens, filhas da chuva, ainda brincam no céu agora muito azul. A lama dos morros contrasta com as ruas muito bem lavadas por ela.

A chuva veio e foi e deixou registrada a fundamental medida do avesso.

Juê, Salvador, 22/10/2011

O culto da mediocridade: uma nota literal de autorregência.

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Se tem uma coisa que desadmiro por completo é o culto da mediocridade. Da auto-mediocridade, então… É certo: é mais fácil ser pior do que se pode ser do que ser o que se pode, mais difícil ainda ser melhor. Por alguma lógica, no ser grande caberia também o ser pequeno.  Acontece que curvar-se pra alcançar o solo, onde mora a precariedade, entorta a coluna. A coluna e o caráter.

E  o culto da curvatura da coluna (e do caráter) é tão desprezível, que chega a soar como esnobe a minha imensa vontade de virar as costas e mudar de canal. Mas esnobe é ainda a posição de quem se vê de pé tentando desafogar os corcundas. Pior ainda se agachando pra ajudar (podendo é acabar ficando lá por baixo mesmo).

(E nesse joguinho aparece um monte de farrapo querendo levar a fama de tecido muito bem do emaranhando. Vidro quebrado se passando por diamante.)

Ah, quando devaneio!  Só pra lembrar: quem é diamante e se acostuma a oferecer migalha, migalha vira. Às migalhas não se oferece diamante. E é fato: é preciso se recusar a aceitar e a oferecer migalha. Sempre. Pra não se acostumar.

Pois é (ponto final)

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Com isto posto
Fica dado
Outorgado
Definido
Este caso
É finito
Findado
Acabado
Esquecido

Sem vias
Carimbo
Protocolo
Testemunha
Nem minha, nem sua
Nem juiz, nem cartório

É fim
Portas seladas
Janelas fechadas
Passos na direção contrária
Do que ficou

É fim
Sem dizer nada
Sem vela
Sem cara
Mortalha
Veia escancarada
Nem nada

É fim
Vácuo no tempo
Canção em silêncio
Pés, cada um
numa estrada

É fim sem lenço
Sem demora
Sem trilha sonora
Sem dor de memória
De passeio entre as amoras
Que nunca existiu

É fim
Está dado
Fim fadado
Desde o princípio
Semi precipício
Confortável calabouço
Oposto do desgosto
Ensejado mau gosto
Gosto meio-amargo
Não-fogo cruzado

É fim
Não se discute
Até que alguém argumente
Não houve início
E isto,
Defendido
Justificado
Referendado
Prova que é fim
Enfim,
Controverso
Sem arroubo
Dilacero
Nem mentiroso
Nem sincero
Sem início
Ainda um fim
Que afinal
Como todo fim
Coloca o ponto final

juê – abril/2010

(“o doce enterro da saudade” é verso de “saudade” do sérgio cassiano, do mestre ambrósio”

manifesto pelo fim da poesia

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Que falte-lhe olhos para enxergar o foco

Que falte-lhe pele para sentir beleza

Que falte-lhe tempo para perder com amor.


O foco é pensamento

A beleza é uma dor

O amor, uma brutalidade.


Que falte-lhe ar que inspira poesia

que olha-pensa e belo dói bruto amor.


Que seja objetiva tua existência

Que em objeto viva

Que seja menos eterna sua vida que a minha

Que ser sujeito da vida

É vida em dor.


(jue, dezembro de 2009)

obs.: é uma latência que só, já reescrevi umas 50 vezes… ainda pode mudar.