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Nossa pequena história nossa

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Parte I – Marca do instante imediatamente após ao ato final. Instante eternizado no coração e nas palavras.

Meus olhos ainda estão úmidos. Meu corpo ainda leve pulsa em teu pulso e cheira teu cheiro. Minha pele ainda tem teu arrepio e tuas garras. Em meu coração ainda cabe tua alma. Suas mãos fortes, tua pele macia, tua respiração em meu pescoço: marcas do último capítulo de uma história minha e tua.

 
 Parte II – Diálogo
– E …tuas costas…?
– Eu quase tatuei.
– Fluxo de desejo e ódio de ti e de mim.
– Foi uma das coisas mais lindas que vivi.
– Foi uma das coisas mais fortes que vivi.
– Teu dente em minha carne, marcou para sempre.
– Tua carne em meu dente, marcou para sempre.
* * *

– Eu vi tua ira.

– Eu vi tua dor.

– Notei que chorou.

– …
– Sintonizo cada músculo teu.
– Escutei tua prece, pra eu ficar.
– …
– Escuto teus pensamentos.
– Eu te abracei.
– Quis que me envolvesse.
– Eu te abracei mais forte.
– Mais entreguei meu corpo.
– Não quis te soltar.
– Agarrei tua mão.
– Segurei teu coração.
– Agarrei teu braço.
– Respiramos na mesma pulsação.
– Deitei meu pescoço em teu ombro.
– Respirei tua respiração.
– Deitei minha cabeça em tua respiração.
– Respirei teu arrepio.
– Deitei meu peso em teu corpo.
– Ouvi nossa súplica para voltar o tempo.
– Fomos um.
– Eu em ti.
– Eu em ti.
– Um.

Parte III – Como numa sala de espelhos um já não sabia quem era o verdadeiro outro. Diálogo.

– Eu desconfiei de ti.
– Não acreditei em tuas palavras.
– Pedi ajuda a teus inimigos.
– Maldisse teu nome a desconhecidos.
– Quando te olhei não te vi.
– Quando te vi não te olhei.
– Andei atrás de ti sem que notasse.
– Caminhei adiante pra que seguisse.
– Te deixei partir sem te avisar.
– Segui meu caminho sem te chamar.
– Quando dei por mim você tinha partido.
– Quando dei por mim você não tinha vindo.

Parte IV – Uma carta jamais remetida

Esta é uma história que aconteceu com duas pessoas. Eu e você. Sim, o tempo passou. Mas recupero estas palavras, enterradas no fundo de alguma gaveta de meus sonhos. Não serão enviadas, como a maioria das palavras que escrevo. Pouco há de se dizer desta história. Nada de um grande romance, um romance de livro, um arroubo digno de cinema. Curta, talvez. Intensa, certamente.

Agora fecho os olhos para melhor sentir o vento. Minha cabeça encostada na parede em que antes coube nós dois. O mesmo vento levou teu cheiro e dissipou tua imagem. Não em minha cabeça, em meu coração. Há em mim ainda a tua lembrança.

Uma pequena história… Já vivi algumas outras, certamente não tantas quanto você. Mas aprendi a dizer adeus, a sorrir, mesmo a chorar, sem sofrer, de saudade. Como te disse, meu choro não é sempre desespero: é barco que carrega o mar de dentro.

Em meio a nosso último capítulo chorei. Entre tantos motivos, o desespero esteve entre eles.  Porque o vento – talvez muitos – dissolvia-te de mim. Não havia nada de errado em nós: nada tão grande que não pudéssemos carregar, nada tão pequenos que nos pudesse faltar. Você, ao meu lado, coube no espaço que tinha ali. Tão harmoniosamente, nem me preocupei que pudesse partir. E eu não te expulsaria.

Ventos, águas, águias, estrelas, sóis, lanças e armas foram remexidas. Moveram-te pro meio do salão. Moveram-me para o meio do furacão. Não percebemos nossos dedos se soltar. Não notamos os olhares desviar. Os olhos e as mãos são guardiões do coração. Desconectamos.

Nos perdemos.

Nos perdemos e cedo ou tarde nos perderíamos, talvez. Nossa história, pequena e leve, intensidade de nossos desejos, não prometia nada para além da simplicidade de respirar o mesmo ar que se respira. E tudo o que é sem promessa pode ser o que bem quiser. Nossa história foi assim.

E foi assim que nos perdemos. De hora pra outra e já não havia mais explicação. Há quem tenha nos maldizido. Não foram poucos, nem poucas. Maldisseram nossa leveza intensa e sem promessa. Maldisseram, duvidaram, quiseram transformar-nos em outra coisa.

Titubeamos. Não resistimos. Soltamos as mãos. Desviamos os olhos. Nos perdemos.

Em outros colos, ouvidos e bocas fomos buscar abrigo. E certas coisas, ditas em voz alta, não fazem sentido para quem não viveu. Desconectados, eu e você, também perdemos nosso sentido. O sentido meu e teu, de nós dois. A descrição de ti junto de minha angústia transformou-te num ser sem caráter e leviano. A descrição de mim junto de tua ira me transformaram num ser indiferente e arrogante. Foi quando perdemos nossa capacidade de nos ter nos olhos, na pele, no pulso que nos perdemos.

Perder alguém não é novidade pra mim, não é pra ti e não deve ser a ninguém. Mas te perder me revelou meu preceito, meu tabu e meu valor maior. Minha maior virtude e meu maior desafio. Revelou, na posição de meu antídoto. Tão opostos que somos, você me revelou, em sua partida, o grande dilema de minha existência. E foi assim que soube que de nada adiantaria tentar salvar nossa pequena, pequena e leve, leve e intensa história. Minha maior virtude, meu maior veneno.

Eu vi tua ira e teu esforço para se admitir por perto. Tão opostos que somos, foi a tristeza o meu sentimento diretamente proporcional ao teu. Senti tuas palavras ditas com engasgo, certa dose de desdém, uma pitada de fúria contra mim. Eu, em minha tristeza, já não tinha nada a dizer se não lamentar. Lamentar porque já não era mais você ali. Nossas palavras soavam em tom solene, nossos corpos já se encostavam sem desejo.

“Perdemos muito mais do que dizemos”, finalmente eu disse.

E num atropelo de desespero pedi com toda a força que me restava para que pudéssemos nos despedir. Para reencontrarmos por um instante sequer a nossa verdade. Agradeci e ainda agradeço por teu calor vibrando em minha pelo, teu peso inteiro em meus braços, tua respiração junto da minha.

Um turbilhão de sentimentos, emoções e atos nos envolveram. Ainda havia tua ira e minha tristeza indicando o inevitável momento do adeus. Te vi também triste. Me viu também em fúria, numa luta absurda contra o que não pode ser vencido.

Nossa verdade ultrapassou o curto tempo que durou nossa história. Nossas almas se conectaram. tivemos provas disto. Intensidade e verdade. Enquanto a matéria pode entender e viver assim, nos tivemos. Nossa pequena história não foi um grande romance, um romance de livro, um arroubo digno de cinema. É certo que ela está gravada pra sempre em nossas retinas, peles, peitos e almas. Não há dignidade sequer nestas palavras para descrevê-la. E não há o que possa apagar. Esta nossa, nossa pequena, pequena história minha e tua, nossa pequena história nossa.

Parte V – Diálogo

– É uma noite sem lua.
– A lua não foi capaz de nos ter.
-Era cheia quando começou.
– Para nos saudar.
– A lua, minha guia.
– Minha maior amante.
– Nos deixou a sós esta noite.
– Para dizermos adeus.
– O mundo não foi capaz de nos ter.
– Nós não fomos capazes de nos ter no mundo.
– Não coube o mundo em nossa história.
– Nossa história não coube no mundo.
– …
– …
– O que vamos fazer?
– Não há nada a ser feito. Só nos resta deitar a cabeça no travesseiro e pedir que a noite avance e cumpra o seu papel…
– Antecipar a luz que traz um novo dia.

Juê Olivia dos Anjos – outubro de 2011, Salvador, Bahia

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o que encanta seus olhos?

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o que encanta seus olhos?

o que O encanta, Seus Olhos?

o que encanta a seus olhos?

 

a dificuldade gramatical em fazer esta pergunta é diretamente proporcional à dificuldade matemática quando se compreende que “o que”, no caso, não é passível de fórmula ou medida alguma.